sábado, 1 de dezembro de 2007

Ode ao Dia das Crianças.

Eu odeio São Cosme e São Damião!
São incapazes de criar crianças à prova de balas!

Hoje eu vi uma menininha pedindo no sinal
A mesma que tinha visto dormindo no jornal,
Do carrão, recebeu uma moeda do Secretário de Educação,
que tava atrasado, com comitiva do lado
Pra inaugurar mais um Ciep, que nunca funcionou, nem funcionará.

E eu odeio São Cosme e São Damião!
São incapazes de criar crianças à prova de balas!

Não há Herói Abaixo da Linha do Equador. Nem Pecado.

O Brasil é um país sui generis.

Num esquema dominado pelo antagonismo-moral-crônico, é perversamente natural (a ênfase está no perverso ) que se dê mais valor àquilo que de fato é menos relevante para o convívio humano;
é a apologia da musa,
é a forma valendo mais que o conteúdo.

Não é de se estranhar então, que surjam
advogados-impecilhos,
juristas-injustos,
médicos-desumanos,
políticos-não-políticos,
religiosos-impiedosos,
namoradas-ciumentas,
maridos-egoístas,
Estado-privado,
assassinos-que-oram...

Mesmo assim, muitos dessas pessoas incongruentes em quem nos tornamos, arvoram-se no direito de sorrirem amarelo e estufarem o peito, quando cumprem com a ‘manutenção do belo quadro social’.
Tem gente que se vangloria de ser ético. Ora, isso é risível.
Um herói é herói porque organica/existencialmente ele é assim, a não porque seu coração é a ostentação.

As únicas criaturas que merecem ser condecoradas por fazerem o óbvio, são as crianças.
Elas merecem ser aplaudidas quando riem,
e uma medalha de honra ao mérito, quando brincam.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

FHC - O Fim do Homem Cordial.Vol.II: Complexos de Poliana e do Alemão

...a Liga da Justiça Beatnik estava completa. Saímos tagarelando pelas ruas da Tijuca expondo todas nossas verves políticas, amorosas, místicas e poéticas...”varamos as ruas juntos absorvendo tudo aquilo com aquele jeito intrépido de recomeços, e que mais tarde se tornariam melancólicos, perceptivos e vazios. Mas dançávamos pelas ruas como piões frenéticos, eu me arrastava na mesma direção como tinha feito a minha vida toda, sempre atrás de pessoas que me interessavam, pois para mim, pessoas mesmo são esses caras, que estão loucos para viver, loucos para serem redentores rendidos, que querem salvar o mundo todo ao mesmo tempo agora, estão loucos para falar, nunca bocejam e jamais dizem chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo feito constelações em cujo centro fervilhante – pop! - pode-se ver um brilho azul intenso...”. Chegamos lá em casa e recobramos nossa prosa-provocativa com biscoitos água e sal com gergelim, e capuccino mentolado. Beto foi o primeiro a dormir, e isso rapidamente se percebeu pela falta de expressões geniais, que de repente faltam à conversa. É dele, expressões como ‘você é uma garota extremamente-mais-ou-menos’ e ‘têm mulheres que são compradoras compulsivas, mas João é comprador compulsório’. Fiquei atônito por saber que Orfeu ronca.

Eu estava só o pó da rabióla, mas mesmo assim Pedro capotou primeiro que eu. Suas últimas palavras foi algo em torno de Reforma Agrária. Pedro é uma das personagens mais 'plural’ do meu multiverso imaginário: ele pode ser o trovador encantador que salva a cidade das ratazanas, pode ser o chapeleiro maluco enigmático que vigia e orienta Alice, mas pode também ser o primeiro senador saído da UNE que milita exclusivamente por causas populares, tanto quanto um acadêmico pós doutor que dá aula gratuita de Filosofia em comunidades ribeirinhas, quando não está em wall street prestando consultoria para Rockfeller’s. Dorme com mesma facilidade e intensidade com que fala.

Fui pro meu quarto e me entreguei à escuridão e vasto pensamento e emoções imperfeitas do sono.

Sábado começou muito estranho. Uma mistura de sono, afazeres inacabados e ansiedade incomodavam meus gametas. Pastor Rodney aportou no prédio às 10h. Seguimos para o famigerado Complexo do Alemão, com o programa do dia que seria de ensaiarmos, almoçar e às 5h da tarde nos dirigir, ou sermos dirigidos, para São Gonçalo onde participaríamos do Congresso de Jovens da Primeira Igreja Batista do Neves.
O ensaio foi uma belezura. A Igreja Batista do Cordeiro fica na rua Canitá, pra quem não associa o nome à pessoa, é a porta por onde se entra ao baile da quadra da Canitá, local que normalmente é dominado pelo grave em decibéis ensurdecedores da Furacão 2000, é também um recanto bucólico onde Marisa Montes apresentou seu show do seu último disco (que é duplo), 'Infinito Particular’ e ‘Universo ao meu redor’. A rua Canitá é ainda caminho de acesso para o micro-ondas do jornalista Tim Lopes, e também é por ali que fica a contenção (duas pedras quadradas de tamanhos faraônicos) do caveirão - o bólido infernal da Guarda Nacional.

Ah! o ensaio. Bem, ensaio foi uma belezura. A banda compunha-se de baixo, batera e percussa, teclado, guitarra e vocais, vários vocais. Dez vocais. Eram Rodney e Guthemberg nas vozes de homens e oito mulheres nas vozes de...mulheres. Essas garotas, são uma espécie de Jovem Guarda do Complexo; preservam em seu canto toda uma integridade e honra; são jovens lindas que o poder paralelo insiste, mas não consegue tirá-las do aconchego do evangelho redentor de Jesus Cristo. Definitivamente, não há vida social possível sem o senso de esperança e dignidade que o Cristianismo imprime em nossos corações e mentes. Pergunte pras Garotas Cantoras da Igreja Batista do Cordeiro.

Guthemberg e Rodney, são casos à parte. O pr. Rodney é provavelmente o cara mais carismático (no melhor bom sentido da palavra) da América Latina. Cinco minutos com ele é o suficiente para querer levá-lo consigo e ser seu amigo para o resto da vida; a fala prosaica, o caráter ilibado, o coração do tamanho de Deus, fazem dele ‘O Homem Providencial’, ali no Complexo. Pr. Guthie traz de volta uma expressão da minha infância, ele é o ‘boa praça’; combina malemolência carioca com coração piedoso. Tenho a impressão de que ele seja um ‘Robin Hood às avessas’, que nos faz lembrar que na fraqueza somos fortes, na pobreza somos ricos, por tudo que Cristo fez por nós...CONTINUA

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

FHC - O Fim do Homem Cordial

Há algum tempo, havia eu, decretado o Fim do Homem Cordial. Pretendia com isso, endurecer sem perder a ternura, minha super-boa-vontade com algumas personagens do imaginário coletivo do multiverso carioca. Não sou pessimista, chego mesmo a ter uma espécie de postura Poliana, mas ser acintosamente abordado por esses facínoras, tem me tirado a paz...os facínoras os quais me refiro são, antes figuras simpáticas e emblemáticas, agora esses flanelinhas malandrões, taxistas escorchadores, policiais arregueiros, doninhas punguistas..., só para ilustrar: dias esses fui ao teatro. E fui também‘intimado’ na porta do Ginástico, por um flanelinha-cadeirante-com-colete-falso-da-prefeitura, que me obrigou a dár-lhe R$5,00 para tomar conta do meu carro (que tem seguro, e que ele não conseguiria nem tentaria de modo algum, impedir furto ou arrombamento, pelos motivos óbvios: não é ninja, nem estaria ali por perto caso o fosse). Eu, poliana até os ossos, fiquei argumentando uma maneira com que o negócio fosse interessante para os dois, mas perdi tempo. Ele imaginava que iríamos para alguma Boite ali por perto, o que lhe outorgava o direito de estar ‘cobrando’ aquele valor ‘na moral e honestamente’, que era a quantia cobrada por uma cerveja na tal Boite. Pensei em explicar para o meu algoz a situação de vítima em que nos metemos - eu e ele – ao entregar nosso país nas mãos dos executivos viciados na santíssima-trindade-deste-século: dinheiro, autoridade e poder, e que por isso, somos roubados, assassinados no corpo e na esperança, tendo como vendido chãos sob pés que ainda nem nasceram. Mas alguma coisa no meu subconsciente me dizia que aquele cidadão estava determinado a me levar os R$5.00, tenha ele me prestado algum serviço, ou não.
É por essas e outras que o filme do Daniel Lisboa ilustra e retrata o que quero dizer no título desta crônica.
Trata-se de “O Fim do Homem Cordial” (FHC), principal vencedor do Festival do Cinco Minutos, patrocinado pelo DIMAS (da Fundação Cultural do Estado da Bahia). O vídeo, por mostrar uma situação inusitada, segundo se fala, foi fator determinante de abalos sísmicos na estrutura administrativa do setor de audiovisual desse órgão governamental. Porque o júri – formado por pessoas de diversos estados e que talvez não conhecessem as idiossincrasias da política baiana – premiou como melhor vídeo justamente um que ataca de frente ACM-Corleone – no dizer do jornalista Hélio Fernandes – e, ainda por cima, a sua rede de comunicação, cuja ponta de lança é a Tv Bahia e o seu indefectível telejornalismo, à frente o BaTv.
A sigla FHC sempre me traz más recordações– seja pela lembrança do energúmeno que doou o Brasil, vendendo boa parte de nosso patrimônio –; seja pela Nova Ordem de Q(c)uartel Nacional instaurada no Rio de Janeiro, que achincalha as pessoas de bem de todas as Comunidades do Rio de Janeiro, sejam elas periféricas ou zona-sulistas, tendo como exemplo da primeira, algumas áreas do Complexo do Alemão; seja ainda o exemplo supracitado. Em todos esses casos, no filme , numa saída de sábado à noite...estão presentes o mesmo pano-de-fundo, quer dizer, de chumbo:
A demonstração vulgar de poder, inspirada na onda de imagens divulgadas por grupos terroristas, sejam os dos atentados de 11 de setembro, sejam da Ditadura em Miammar, seja do Estado-de-Sítio do Rio de Janeiro, ou ainda das novelas instigadoras do consumismo desenfreado. “Qualquer pessoa, que tenha acompanhado os noticiários televisivos dos últimos três anos, pode perceber uma serie de imagens de grupos terroristas, com reféns, filmadas e divulgadas pelos próprios. Essas imagens são diferentes de todo o material exibido pelas emissoras de noticias. Essa configuração de imagem é dirigida pelos próprios terroristas. Um novo elemento audiovisual, não cordial, é incorporado e cria uma mancha na programação normal. É a estética do terror, da fome, do anti-cordial, da intolerância, da violência e da injustiça”. O fim do homem cordial assola o Rio de Janeiro.

Novos paradigmas:

Eu sofro de Complexo de Poliana, o que me leva a ver o lado bom das coisas. E também sofro de Complexo do Alemão, o que me leva a viver o lado bom das coisas.

Sábado último, fui convidado por dois amigos pastores batistas, a me ajuntar a eles para tocar (ministrar louvor e adoração), do outro lado da ponte Rio-Niterói, mais especificamente em PIB Neves, São Gonçalo. Esses jovens pastores são da Igreja Batista do Cordeiro, no Complexo do Alemão. Atendi mais que prontamente, pois passar momentos com essa comunidade, é pra mim, experiência edificante.
Desde a sexta-feira que antecedia o evento, as coisas já se pronunciavam promissoras. Fui com o Beto-amigo-próximo-como-irmão num desses ‘podrão’ comer churrasquinho de filé-miau. Conversávamos sobre essas coisas que se conversa numa sexta à noite, futebol, teologia, filosofia, pagmáticas, futuros, passados, expectativas de ministérios, mulheres, amigos, irmãos, heróis, necessidades materiais, espirituais, orgânicas...na tv começava um programa de entrevistas em que apareceu o Arnaldo Jabour, no EXATO momento em que falávamos de Antônio Gramsci, e eu usava o Jabour como exemplo de um intelectual orgânico...até que chegou para compor conosco mais um desses caras fantásticos que Deus coloca em nosso caminho, era o Pedro’flautista de hemelim’, sempre com um pensamento filosófico na ponta da língua e um senso de justiça aguçadíssimo, na porta do coração....CONTINUA

sábado, 3 de novembro de 2007

Capitais Intangíveis - vol. II

O evento organizado no BNDES sobre Capitais Intangíveis superou minhas expectativas, cheguei ao conhecimento do evento pesquisando transdisciplinaridade e pensamento complexo, e na tentativa de obseravr o comportamento da Economia à essas faculdades, me vi observador da história. Cheguei em cima do laço, então minha confirmação pro seminário só me chegou no domingo de noitão, o que me impediu de participar já na segunda-feira. Eis minhas subimpressões*:
Muitas pessoas participaram (mais de 400 pessoas passaram pelo evento nos dois dias),dessas, os participantes-palestrantes apresentaram sensibilidade e pragmática política do conteúdo ali debatido.
Só pude ir no segundo dia (terça-feira). As falas de Luiz Carlos Prestes Filho, sobre a Economia do Carnaval; de André Urani, sobre o futuro das cidades (Rio e São Paulo); e de Helena Lastres sobre as redes e a produção do conhecimento, me leveram aos conceitos de transdisciplinaridade e capitalismo cognitivo, que permeiam a cena contemporâ política-social-urbana-latino. Os recortes trazidos - Carnaval do Rio de Janeiro, São Paulo Fashion Week e APL da Seresta de Conservatória, indicam que não se trata de efemérides, mas de recortes intangíveis, e claro, observáveis e palpáveis em seus benefícios monetário$.
A economista Lidia Goldenstein reforçou a necessidade de buscarmos novos caminhos (eu diria observar outros desdobramentos) para nosso desenvolvimento sócio-econômico, colocando os óculos de Indústrias Criativas; entendidas aqui como as relacionadas com a Indústria Cultural, mas Tecnologia da Informação, biotecnologia, telecomunicações e novas mídias, design, ... Esta é a indústria que tem a capacidade de trazer o novo e impulsionar o velho para mudar,( é o Gadamer revisitado por causa do Prigogine) como está acontecendo com a Inglaterra/Europa. Graça Cabral, da São Paulo Fashion Week exemplificou as idéias de Lídia, demonstrando a impedância deste evento na indústria textil/fabril.


"No Brasil temos procurado a chave do desenvolvimento econômico e social em torno dos mesmos postes, sem perceber que eles não tem nem mais luz... 10 entre 10 governadores do Estado do Rio de Janeiro anunciam como uma das prioridades número um de seus governos o desenvolvimento da indústria naval. De fato, a indústria naval foi, felizmente, reativada no Rio de Janeiro. E qual foi seu impacto na economia do Estado em termos de emprego e renda? Muito pequeno, e de qualquer forma, é mais de 100 vezes MENOR que o impacto da Indústria da Cultura!!!! E isto apesar da luz dos incentivos fiscais e benesses do Estado só beneficiar a indústria naval". Marcos Cavalcanti, sampleando os mesários.


O recado do evento foi dado: os desdobramentos do desenvolvimento sócio-econômico estão nas rédeas do capital cognitivo, portanto intangível. Os que têm óculos para ver, vejam.



*Obs.:Essas impressões são sub-impressões das impressões de Marcos Cavalcanti, que tem um blog interessantíssimo: http://oglobo.globo.com/blogs/inteligenciaempresarial/.

CONTINUA...OU NÃO.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Capitais Intangíveis

Participei hoje, de uma maratona lá no BNDES, para ficar atento às Economias propostas para os futuros próximo do nosso Brasil varonil. Foi uma trip e tanto.
Por hora, posto o programa. Em tempo hábil, tasco minhas impressões.
Em tempos de transdisciplinaridade, nada mais normal que Capitalismo Cognitivo. Ou seria o contrário?

Dia 30/10 (terça)
09h30 às 11h00 – Capitais intangíveis e as cidades
Helena Lastres (Assessora Presidência do BNDES)
André Urani – IETS (Instituto de Estudos sobre Trabalho e Sociedade)
Luis Carlos Prestes Filho - Cadeia Produtiva da Economia do Carnaval
Coordenador: Eduardo Rath Fingerl (Diretor BNDES).

11h15 às 12h30 – Inovação e competitividade
Lidia Goldstein – Economista Unicamp
Graça Cabral – São Paulo Fashion Week
Coordenador: João Carlos Ferraz (Diretor BNDES)
12h30 às 13h00 – Perguntas e debates
13h00 às 14h30 – Almoço
14h30 às 16h00 – Apresentação das empresas
Embraer
Totvs
Suzano Papel e Celulose
Genoa
16h00 às 16h30 – Perguntas e debates
16h30 às 17h00 – Comentário finais e debates
Coordenação – Eduardo Rath Fingerl (BNDES) e Marcos Cavalcanti

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Os Estatutos do Homem

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida, e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direitoa abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecidoo reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
a festa do dia que chegou.

Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Thiago de Melo à Heitor Cony (Santiago do Chile, Abril de 1964)